Ilhas do Arquipélago da Mancha. Victor Hugo
nos apresenta um universo em todos os seus aspectos: religião, geografia,
historia em um texto acrescentado ao início desta edição. Essa espécie de
prefácio se parece muito com o começo de ‘Os Sertões’ de Euclides da Cunha
(livro que este blog está a ler). Detalhes e mais detalhes sobre os rochedos,
as marés, as correntes de ar. Atravessada esta parte, quando enfim começamos a
história que irá se desenrolar, aí sim temos o filé mignon: Hugo nos
apresentando seus personagens: Gilliatt, Deruchette, Mess Lethierry, a Durande
(um barco – sim um barco é parte importante da história). É um mais fascinante
que o outro. Vamos nos ater a Gilliatt. Por um episódio ao acaso, Gilliatt, nosso
herói, um solitário morador da ilha, tido por muitos como uma feiticeiro, homem
de habilidades e intimidade com o mar, vai sem aviso arriscar a vida até um
rochedo no meio do oceano para retomar a máquina perdida do naufragado barco a
vapor do senhor Lethierry, outro morador com suas excentricidades – entre elas
o anti clericalismo radical. Trabalho insano o resgate da Durande, que coloca
nosso herói em luta excruciante com o mar e todos os seus elementos. A
recompensa? O casamento com a doce Derruchete, filha do nosso ‘Mess’ – título
conquistado a duras penas por Lethierry em uma sociedade divida socialmente cujo
amor vai igual para o barco e a filha, a quem promete o casamento para o ser
que conseguir resgatar a Durande. O fim da história? Só lendo esta obra
fantástica que muitas vezes tem seus momentos ‘os sertões’, principalmente nas
descrições dos engenhos de Gilliatt no rochedo: longas e cheias de detalhes que
podem cansar o leitor. Mas vale a pena: a apresentação dos personagens é
fascinante e apaixonante e o final, ah meus amigos... um final que só um
escritor Romântico da estirpe de Hugo poderia nos brindar. E as reviravoltas da
trama? E o naufrágio da Durande causando pelo aparente homem exemplo-de-conduta
capitão Clubin? Antológico mes amis!!
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Hamlet (ou tentando entender a grandeza de Shakespeare)
Já havia comentado algumas vezes minha dificuldade em gostar
de Shakespeare. Já lidos do autor: Noite de Reis, A tempestade, MacBeth e
Hamlet – talvez a obra mais estudada e escrutinizada da história da literatura.
Li as peças com clara dificuldade para entender o que se passava e chegar às
profundezas que levam a maioria dos críticos a colocar Shakespeare como o maior
criador literário do ocidente. Estes dias me vi pensando mais uma vez sobre o
assunto e repassando na minha cabeça o enredo de Hamlet consegui alcançar algo
de uma iluminação. Talvez muita gente já houvesse percebido o fato - e eu aqui dando uma de retardada: mas não é
a genial a ideia do personagem que para vingar seu pai não pega em nenhuma arma
e sai a matar cruelmente o autor do assassinato? Ao vez disso ele faz o que?
Monta uma peça de teatro... uma peça dentro da peça e ali, encenando a morte do
pai, ele consegue não a vingança em si, mas confirmar a culpa do assassino pela
sua reação. Não é isso genial? Cheguei em casa e fui repassar algumas
passagens do livro. Ganhei meu dia, consegui ter um pequeno lampejo da grandeza
do bardo! Antológico!
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
1968 o ano que não terminou - Zuenir Ventura
A história começa com o revillon na casa de Heloísa Buarque de Holanda, a Helô. Uma festa onde aconteceu de tudo! O ano era a virada 1967-1968. A partir deste momento Zuenir Ventura vai contar através de realtos e de sua própria memória os acontecimentos da época que resultou no AI 5. Mesmo com a seriedade dos eventos não há como não se divertir com a narrativa que conta episódios corajosos, dramáticos. Um deles teve como centro a exibição da peça de José Celso Martinez "Roda Viva". Escrita por Chico Buarque, o diretor se aproveitou do fato de o público de Chico ser majoritariamente a classe média comportada e brindou a platéia com um show de horrores: "No corredor do teatro iniciava-se um ritual antropofágico no qual
as atrizes representando fãs disputavam, estraçalhavam e
devoravam um fígado de boi cru, simbolizando o coração do cantor
que acabava de morrer. Não raro, aqueles que estavam sentados nas
poltronas do meio junto ao corredor, eram atingidos pelo sangue
verdadeiro que vinha do fígado, erguido pelas mãos crispadas da
fanática turba."Este e outros episódios são contados no livro de Ventura além de todos os absurdos cometidos pelos censores. Um deles, exigiu a retirada das palavras "gorila", "vaca" e "galinha" da peça "um bonde chamado desejo" do americano Tenesse Williams. Detalhe: o nome do sensor era Leão. Estas e outras histórias, muitas delas sem este humor negro vão se seguindo em uma leitura deliciosa, esclarecedora e equilibrada pois em nenhum momento o autor parece tomar o lado de ninguém. Leitura recomendadíssima pra quem quer ler sobre este período sombrio da história brasileira. ANTOLÓGICO.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Notícias do Planalto - Mario Sergio Conti - Companhia das Letras (1999)
“A construção de uma imagem presidencial não era novidade”. João
Figueiredo pousava para as câmeras andando a cavalo, José Sarney se apresentava
como literato, Collor como o atleta sendo fotografado correndo, andando de moto,
no meio da mata junto a soldados do exército. Mas nem sempre a produção saía como
a encomenda. “A motocicleta que ele pilotou em Brasília, uma possante Ninja –
descobriu-se em seguida – fora contrabandeada. Na Suécia Collor dirigiu um
caminhão que derrapou e saiu da pista. Vestindo colete da Polícia Federal,
ateou fogo numa montanha de maconha, mas o excesso de gasolina provocou uma
explosão que chamuscou sua comitiva” . Estes e outros detalhes pouco conhecidos
sobre Fernando Collor, a construção de sua imagem antes, durante e depois de
ser eleito presidente estão contidas nas quase 700 páginas de Notícias do
Planalto.
São centenas de anedotas, que Mario Sergio Conti revela no
livro que pretende mostrar a relação de Collor com a imprensa. O autor nos apresenta inúmeros jornalistas dos principais jornais, revistas e emissoras de
TV. Como a imprensa apoiou Collor como uma novidade e depois escancarou a
corrupção que era exercida em seu governo por seu “testa de ferro” PC Farias.
Não dá pra largar o livro, somos apresentados a detalhes da personalidade dos
jornalistas e da própria família Collor desde o pai do “caçador de marajás”, sua
carreira política e a relação pessoal com os filhos! Acompanhamos Collor em sua
campanha e seus pontos cruciais como o já famoso episódio da edição do debate
entre ele e Lula, fator importante para a derrota do candidato
adversário: simplesmente antológico!
domingo, 5 de agosto de 2012
ho-ba-la-la, em busca de joão gilberto - companhia das letras (2011)
'Pra quê discutir com madame?'
Marc Fischer é jornalista alemão "infectado" pelo vírus da bossa nova depois que um amigo toca pra ele a quarta faixa do disco "chega de saudade" de João Gilberto, "ho-ba-la-la".
Fascinado com aquela música, ele tem um objetivo: se encontrar com o artista responsável por aquele som único. Ele vem ao Rio de Janeiro a procura de seu ídolo. O único problema é que este é um recluso dos mais extremos: João Gilberto quase nunca sai de casa, não dá entrevistas, não toca para ninguém a não ser para si mesmo - dez, doze horas por dia.
O que Fischer consegue é falar com aqueles que circularam ao redor de Gilberto: Miúcha - sua ex esposa - João Donato, Roberto Menescal e outros nomes importantes da mitológica história da música brasileira. Dessa forma ele se aproxima de João.
E agora? Nosso alemão vai conseguir realizar seu sonho? Fazer com que João Gilberto toque para ele - no próprio violão que o Marc Fischer traz ao Rio - a música "ho-ba-la-la"? Acompanhamos Fischer em suas aventuras pelo Rio, sua viagem à Diamantina onde Gilberto ficou na casa de uma irmã. Trancado dentro do banheiro com seu violão por dias, ele só sairia de lá com a "fórmula": seu estilo único que seduz gringos desavisados mundo a fora. ANTOLÓGICO.
Marc Fischer é jornalista alemão "infectado" pelo vírus da bossa nova depois que um amigo toca pra ele a quarta faixa do disco "chega de saudade" de João Gilberto, "ho-ba-la-la".
Fascinado com aquela música, ele tem um objetivo: se encontrar com o artista responsável por aquele som único. Ele vem ao Rio de Janeiro a procura de seu ídolo. O único problema é que este é um recluso dos mais extremos: João Gilberto quase nunca sai de casa, não dá entrevistas, não toca para ninguém a não ser para si mesmo - dez, doze horas por dia.
O que Fischer consegue é falar com aqueles que circularam ao redor de Gilberto: Miúcha - sua ex esposa - João Donato, Roberto Menescal e outros nomes importantes da mitológica história da música brasileira. Dessa forma ele se aproxima de João.
E agora? Nosso alemão vai conseguir realizar seu sonho? Fazer com que João Gilberto toque para ele - no próprio violão que o Marc Fischer traz ao Rio - a música "ho-ba-la-la"? Acompanhamos Fischer em suas aventuras pelo Rio, sua viagem à Diamantina onde Gilberto ficou na casa de uma irmã. Trancado dentro do banheiro com seu violão por dias, ele só sairia de lá com a "fórmula": seu estilo único que seduz gringos desavisados mundo a fora. ANTOLÓGICO.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
persépolis (marjane satrapi); lendo lolita em teerã (azar nafisi)
O relato de Satrapi também cobre estes eventos, mas de uma
maneira um pouco mais bem humorada expondo o absurdo da situação onde as
pessoas eram revistadas em busca de qualquer indício contra a moral ou contato
com o decadente mundo ocidental (maquiagem, baralho). As duas dão um relato pessoal e sem detalhes
históricos, o que não leva a uma análise técnica do período, mas apresenta o
absurdo do totalitarismo seja ele de que viés ideológico ou religioso. A
anulação da individualidade como meio de controle e a imposição de valores. Antológico!
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
a ditadura envergonhada - elio gaspari - companhia das letras
Foi o que fiz antes de iniciar a leitura deste primeiro volume dos livros sobre o governo militar escrito pelo Elio Gaspari - autor hoje mais conhecido por ser colunista de um dos "jornalões" brasileiros. Elio tem seu arquivo historiográfico pessoal, conversou longamente com alguns dos próprios presidentes militares, como Geisel, e ganhou bolsa de estudos para pesquisar o assunto no exterior. "A Ditadura Envergonhada" cobre o período desde a movimentação dos militares que depôs o presidente João Goulart até a instituição do famigerado AI-5 que jogou o Brasil em dez longos anos de torturas, censura e abusos inomináveis.
Minha "pesquisa" consistiu em ler algumas resenhas na web. O título de um dos artigos que apareceram já logo confirmava minhas suspeitas: "a historiografia envergonhada". Ou seja, alguns dos trechos do livro de Gaspari tendiam a retratar a ditatura de um modo que nem todos possam concordar. Em outro link também li que alunos de pós-graduação em alguma universidade já haviam jogado por terra alguns argumentos de Gaspari. Como gosto de acompanhar estes tipos de discussão, paguei pra ver e encarei a leitura do livro.
Meu conhecimento em política não é substancial, mas acompanho o noticiário e costumo ler a respeito com frequência. Em casa, tive um pai que foi um político fracassado. Nunca conseguiu se eleger a nenhum cargo, mas conheceu pessoalmente gente como Tancredo Neves e Itamar Franco e isso deve ter me influenciado de algum modo a me interessar pelo assunto. Dito isso, não tenho, portanto cabedal para analisar o livro em suas inconsistências ou discutir seus trechos mais polêmicos, mas posso dar minha impressão geral para quem se interessar em lê-lo.
O livro é muito bem documentado, todas as informações tem sua fonte registrada em notas de rodapé. Descreve em detalhes os primeiros movimentos dos militares para a deposição do governo para "salvar" o Brasil do comunismo. Quando do golpe, vai se descrevendo a formação da resistência, a derrota de parlamentares ligados ao militares nas primeiras eleições pós 64 e a publicação Ato Institucional 2 que liquidou as eleições diretas para presidente. Um dos melhores capítulos do livro, no entanto, é a análise do contexto cultural que o autor faz dos anos sessenta, uma década em que a juventude inquieta girava a roda em um sentido e o discurso oficial girava em outra.
O livro é até bem escrito, mas às vezes oscila: tem trechos saborosos e outros em que ficamos perdidos em tantos detalhes (o que pode ser visto como algo bom, certamente). Pesando tudo, sou obrigada a concordar com a crítica feita pelo texto da internet: Gaspari parece olhar para o período militar sem condenar os presidentes em si e sim criticar a chamada "linha dura", a ala indisciplinada dos militares e, claro, a tortura. O presidente deposto João Goulart é mostrado como um homem sem pulso, vacilante, “sem inimigos, a não ser os da política". Os parágrafos finais deste volume contam do episódio em que militares colocam em um palco presos políticos e com ajuda de slides ensinam técnicas: "a palmatória é um unstrumento com o qual se pode bater em um homem por horas a fio, com toda a força..."
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