sexta-feira, 16 de maio de 2014

Três livros e muita história: Llosa, John Boyne e Chimamanda Adichie

Dois assuntos favoritíssimos da vida: literatura e história. O primeiro eu estudei formalmente na facul, apesar de ter lacunas muitos sérias em termos de teoria literária, um tema que eu sempre achei árido e difícil – tão diferentes dos livros, sempre fascinantes. História é um hobby, um tema que sempre me apeteceu, me parece a disciplina que tem o poder de nos deixar mais instruídos, esclarecidos. Enquanto a literatura nos dá o tipo de conhecimento mais precioso: a sabedoria. Que combinação hein?!
Quando as duas coisas se juntam em um livro eu sempre fico na expectativa, sempre espero um livro incrível. Meu exemplo e standard da ficção histórica é o livro “Ragtime” de E. Doctorow sobre este pianista negro que tem seu carro depredado e vai até as últimas consequências para tê-lo de volta, do jeitnho que estava. As figuras históricas abundam no livro: J.P Morgan, Henry Ford, Emma Goldman Holdini! Antológico!
Três livros que podem ser considerados do gênero foram lidos por este blog recentemente, vamos a eles em um comentário breve sobre cada um:

O palácio de Inverno - John Boyne – Companhia das Letras
Na já odiada e decadente corte do Romanov, um jovem camponês é recebido no suntuoso Palácio de Inverno para estar próximo da família real depois de ter salvado um dos seus membros de um atentado. O livro toma liberdades históricas um pouco previsíveis. Nosso herói se apaixona por ninguém menos que Anastacia, filha do Czar Nicolau. O livro é bem escrito mas muitas vezes tive a impressão de ser um pouco raso. O autor certamente deve ter feito uma pesquisa detalhada, poderia ter nos dado detalhes mais saborosos sobre os anos finais dos Romanov no poder.

Meio Sol Amarelo – Chimamanda Adiche – Companhia das Letras
A história do professor Odenigbo, defensor de uma Nigéria que ressurja independente e forte após os anos da colonização da África é o personagem principal aqui. O relacionamento dele com a filha de uma rica família nos dá um insight ineressante sobre a classe média nigeriana. Olana foi educada na Inglaterra e apesar de morar como o “amante revolucionário” e estar mais próxima do povo pobre de seu país, não consegue evitar ficar nauseada com os ovos de barata que vê na mesa da cozinha de seus entes que moram nas vilas mais distantes - fato que demostra a perspicácia psicológica da autora na caracterizaçãoo de seus personagens. Enquanto o professor vive uma vida comfortável recebendo amigos esperançosos por uma nova África, o país será assolado por uma guerra étinica e poítica na tentativa da criação da República de Biafra. Vamos acompanhar Odenigbo, Olana e seu criado passar pela experiência da guerra, a fome, o terror. Um final belo e triste nos aguarda!

O Sonho do Celta – Mario Vargas Llosa – Alfaguara
Roger Casement foi um embaixador Irlandês que na esperança de “civilizar” a África se mudou para o continente e passa por uma terrível experiência ao presenciar os horrores da colonização belga no Congo. Dos três livros este é o mais denso e o que se aprofunda mais da questão histórica. Llosa é um ótimo escritor realista, consegue compor um romance à maneira dos bons contadores de história. Casement é um personagem fascinante que se tornará famoso por denunciar as atrocidades contra os nativos do congo e depois no Peru, na região da extração da borracha. Em um final trágico, todo esse esforço humanitário e sua reputação irão ser destruídas pelo envolvimento do embaixador com a guerrilha nacionalista Irlandesa. O livro trás detalhes macabros das torturas, há de se estar preparado! Mas acredito que precisamos desse choque às vezes para nos lembrar que a escravidão – de negros, índios – foi o maior genocídio da história da humanidade.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

1Q84 - Haruki Murakami - Ed. Objetiva

Apenas no capítulo 13 do segundo volume, depois de quase 600 páginas lidas, alguém começa a explicar alguma coisa em 1q84. Não que isso seja ruim, porque a experiência de leitura é hipnótica. Conseguir que alguém leia um livro tão afoitamente sem entender onde as coisas estão indo talvez seja um dos talentos de Haruki Murakami. Do autor, este blog já já leu “Do que falo quando falo de corrida” livro biográfico em que Murakami nos conta sobre seu hobby de correr grandes distâncias: fascinante pra quem gosta de corrida ou não.
Talento confirmado. A história é contada em capítulos intercalados, um para descrever as histórias de Aeomame, uma moça que além de trabalhar em uma academia, “envia pra o outro lado” homens que tem um histórico de violência contra as mulheres. Outro capítulo é dedicado à Tengo, professor de matemática e escritor nas horas vagas. Aos poucos vamos sabendo que embora vivendo de maneira diferente e sem nenhum contato um com outro, a história dos dois já se conectou em algum ponto e ambos irão se encontrar novamente em um mundo que não possui a mesma lógica a que estamos acostumados.
Impossível  tentar resumir 1q84. Temos uma moça que escreveu um livro sobre criaturas conhecidas como “the little people”, envolve a passagem de Aeomame para um mundo onde existem duas luas. Tengo, nosso escritor terá a tarefa de reescrever – ou transcrever – o livro pra uma linguagem mais literária. O livro se tornará um best seller. A história – iremos descobrir depois – é real... confuso? Demais, mas de alguma maneira o autor vai colocando tudo isso no papel e nós leitores vamos devorando tudinho, página a página.
A imaginação de Murakami é uma maravilha. Tudo é descrito de maneira detalhada sem nunca ser chato. Os personagens conversam muito, temos uma ideia muito viva sobre todos eles, enquanto o autor não economiza nós leitores nos deleitamos. Há referencias à livros (o título já é uma óbvia referencia à 1984 de George Orwell), cinema, música... Mesmo que às vezes pensemos: ele poderia ter contato isso tudo economizando muitas palavras, isso não se torna um problema porque o mundo do livro é um lugar legal pra se estar, nos sentimos bem nele. Outro perigo que me fez ter cautela no começo é o fato de em cada capítulo termos um personagem conduzindo a narrativa. Sempre que isso acontece tenho a impressão de que o livro tende a oscilar e acabamos por achar um personagem mais interessante que o outro: isso não acontece aqui, mais um ponto pro japonês.
Algum crítico notou que o Japão inteiro parece estar contido no livro. É uma boa descrição. Coletores de mensalidades de tv, religiosos, o sistema escolar, tudo é muito vivo nesse sentido – lembrando que a história se passa em 1984. Na metade do terceiro volume parece que vamos cansando um pouco e esperamos logo pela resolução da trama, mas isso é apenas uma impressão. Logo, logo Murakami encontra algo para nos prender à história novamente e assim vamos caminhando para o final triunfante.
A história, como seu mundo paralelo surreal, vai encontrar o “mundo real” e a natureza dessa ideia parece ser um dos temas do livro. Os personagens Tengo e Aeomame estão conectados por um evento quando os dois frequentavam a escola juntos vinte anos antes. O fim irá unir os dois de uma maneira belíssima. É ficção para aquecer o nosso intelecto e coração. Antológico!

sexta-feira, 14 de março de 2014

Porque sou fã de Clarice Lispector

O ditos “leitores sérios”, aqueles que querem apreciar literatura mais artística, por assim dizer, costumam gostar de Clarice Lispector – hoje parte do cânone da literatura brasileira. Clarice, Guimarães Rosa e Machado de Assis são meus autores brasileiros favoritos (outros correm por fora, mas isso é tema pra outro post). Estes autores fazem parte de um clube de autores que eu chamo criadores de mundos. São artistas que inventaram um estilo próprio de escrever, tomaram para si uma temática e sua autoria pode ser reconhecida depois de lermos algumas linhas. É gente como Jorge Luis Borges, Nelson Rodrigues, Kafka. Enfim, gente que virou adjetivo: kafkiano, borgeano, rodriguiano, etc.
Clarice é colocada entre os autores do modernismo brasileiro. Ele, o modernismo, com o qual em tenho uma rusga. Autores ultramodernos nunca me apeteceram muito: escrita truncada, a narrativa que não flui e deve ser decifrada são algumas características que me deixam ressabiada com o movimento. Sempre gostei mais dos bons contadores de história do século XIX: Jane Austen, Balzac, Emily Bronte... Mas Clarice é diferente. A escrita tem gosto, existe um calor que sai das páginas mesmo que a história seja cheia de tristeza e ironia.
Meu primeiro contato com Clarice aconteceu com os rumores que eu ouvia na adolescência. Quando uma colega já no “segundo grau” me pegava devorando livros da Agatha Christie, ela dizia: “deixa quando você tiver que ler Clarice Lispector, os personagens dos livros dela não tem nome (sic)”. Depois foi uma professora de português que nos falava de autores que nunca leríamos com uma aura de mistério, como se apenas iniciados na ciência oculta da leitura tivessem acesso. Só muitos anos depois eu finalmente peguei a coletânea “Laços de Familía”, ah meus amigos, algo aconteceu ali. O que era aquilo hein? Nunca me recuperei.
Meu favorito até o momento é “A Hora da Estrela”. A sucessão de títulos possíveis da obra já no começo é sensacional: “A culpa é minha ou a hora da estrela ou ela que se arranje ou o direito ao grito...” “Ela que se arranje”, será que apenas eu acho graça nesse possível título? A Hora é um livro que contém tudo que mais gosto em Clarice: intimismo na narrativa (com um narrador em primeira pessoa, óbvio), uma personagem que é engraçada e triste, conflito de emoções e sacadas maravilhosas sobre nosso mundo interior. Já no comecinho: “E não esquecer que a estrutura do átomo não é vista e sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também. Não se pode dar existência ao que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar, acreditar chorando.” É uma pancada dessa atrás da outra: fantasticamente antológico!!!

quinta-feira, 6 de março de 2014

Lista: 3 tesouros ainda não descobertos na estante

Em um dos meus últimos vídeos no youtube, disse que esse ano eu iria parar de comprar livros e ler as coisas que eu tenho em casa. Alguém muito sabiamente já saiu com o comentário: “esse é o mantra de todo leitor”. Risos. Verdade, leitor viciado tem um monte de coisa na estante ainda por ler e sempre faz a promessa de lê-los: raramente cumpre. Primeiro por causa da promoções. Como todos temos uma wishlist ou “lista de querências”(termo que eu adoro), sempre que aparece uma promo com alguns dos títulos da lista de desejos, somos acometidos por uma urticária terrível: como é difícil se segurar.
Eu estou tentando levar meu plano à sério. Estou passeando pela minha estante e separei algumas coisas que precisam ser lidas. Antes de tudo porque são boas, segundo porque já tem livro comprado amarelando na estante há anos (sem exagero). Vamos a lista de alguns deles:

Retrato de Uma Senhora – Henry James (Penguin Classics)
Fiquei fascinada com a narrativa de “A Volta do Parafuso” de Henry James. Tudo funciona: o suspense, a narrativa densa. Me prometi ler no original. “O Retrato...” é um dos grandes livros do autor. Minha curiosidade foi despertada quando li “Fun Home”, quadrinho da Alison Bechdel que cita vários livros durante a história, um deles este de James. Está ali, bonitinho, com folhas já amarelando numa daquelas edições da Penguin Classics.

Os Dez Amigos de Freud – Sergio Paulo Rouanet (Companhia das Letras)
A ideia deste livro é fabulosa. Rouanet se aproveita do fato de um editor vienense ter enviado uma proposta à Freud: listar dez bons livros. Freud listou aqueles que seriam seu “livros amigos”. Rouanet é filósofo, diplomata, ensaísta, etecetera (além de membro da academia brasileira de letras), analisa cada livro da lista, seu autor, contexto e relação com a teoria psicanalítica. Parece um daqueles livros que sevem para nos educar, nos ensinar sobre autores novos, história, lugares. O começo do primeiro volume é uma delícia, nos contando um pouco sobre a rotina de Freud: “Normalmente o professor Sigmund Freud começava sua rotina às oito da manhã. Só interrompia suas atividades para o almoço, e voltava a trabalhar até o cair da noite. Era quando jantava...”. Espere por mim!

Meio Sol Amarelo – Chimamanda Adichie (Companhia das Letras)
Autora recomendadíssima pela Denise, do blog Cem Anos de Literatura. Há mais de um ano assisti ao vídeo em que ela falava com tanto entusiasmo sobre esta autora nigeriana. A narrativa parece mesclar literatura e história, uma mistura que eu costumo adorar. Além do mais é preciso ler autores contemporâneos pois sempre ando perdida lendo coisa do século XIX (ultimamente estou numa obsessão com os franceses). Devo ler ainda no primeiro semestre deste ano. E vamo que vamo! Tentar cumprir a sempre frustrada promessa de ler o que está em nossas estantes. Vale a tentativa.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Tempo para leituras - que não sejam os livros

Livro é o que eu mais leio. O hábito de ler livros sistematicamente, ou seja, um atrás do outro eu adquiri muito tarde. Posso dizer que compro livros desde os 17 anos, mas só fui realmente lê-los mais de 10 anos depois. Em 2010, passei seis meses em BH, estudando em uma das disciplinas isoladas do mestrado em Inglês da Universidade Federal de Minas Gerais. A matéria era sobre literatura americana, algo como “questões de gênero, raça e linguagem”. Lemos ótimos livros de autores negros, mulheres e obras dos autores mais experimentais como Thomas Pynchon e William Faulkner. Foi ótimo, o mestrado não foi pra frente, mas foi uma experiência fundamental ler, discutir e escrever sobre livros incríveis. Passei o semestre tendo que ler um livro por semana praticamente e foi esse esquema que me acostumou a ler constantemente. Passei até a conta-los: em 2011 foram 45, em 2012, 50 livros, em 2013 a conta caiu, mas tudo bem: 28 livros lidos
O que eu lia antes disso? Lia sobre os livros e não os livros em si. Lia muito revistas e coisas online, jornais etc. Recortava e guardava resenhas em uma pasta (um dos sonhos da minha vida é reencontrar essa pasta que se perdeu na casa de alguns dos meus irmãos), o que me ajudou muito quando consegui comprar mais livros: aprendi sobre autores que valeriam mesmo a pena ler. Quando comecei a frequentar livrarias e levar mais coisas pra casa, eu já sabia o que queria.
O problema é que agora a questão se inverteu: como ler periódicos? Sinto uma sensação de culpa toda vez que passo horas lendo coisa na internet. Sou assinante de uma revista brasileira e vi várias vezes uma pilha se formando com os exemplares se acumulando ainda no plástico. Não vou entrar no mérito da qualidade das publicações brasileiras, mas sei que existe muita coisa bacana pra se ler. Eu particularmente gosto do jornalismo americano, como a página cultural do The New York Times ou da revista The New Yorker. Em uma viagem recente à Buenos Aires, descobri uma publicação chamada 'Brando' que traz dicas de séries, livros, matérias interessantíssimas: o jornalismo cultural Porteño parece ser de primeira.
Outra revista muito legal é a “The Believer” fundada pelo autor americano hiper-hype Dave Eggers (preciso ler). Tem como um dos seus colunistas o britânico Nick Hornby – autor do também livro-hype Alta Fidelidade. As resenhas de livros são ótimas, tem matérias sobre literatura, música e cinema: coisa fina. Ah, e quem desenha as capas é ninguém menos que o Charles Burns (autor de “Black Hole” conhece?).
Mas onde está o tempo pra ler isso? Todo leitor viciado que se preze tem uma lista interminável de livros que quer ler, quer ter. Como faz? Nos últimos tempos tenho tentado liberar um dia da semana pra acompanhar essas publicações, tirar um dia pra ler revistas, jornais e sites bacanas como The Flavor Wire. E sim, fazer isso sem culpa de estar deixando os livros de lado. Foi a solução que encontrei, vamos ver se a pilha da revista assinada para de existir. Tomara.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A saga do livro pela metade

Vamos falar sobre os livros deixados pela metade e suas razões. Não gosto de abandonar livros, principalmente aqueles que comprei, me deixa uma sensação ruim de uma compra mal feita, tempo e dinheiro desperdiçado. Muitas vezes deixamos um livro não inteiramente lido o que é algo diferente, tentar entender porque o livro foi deixado pela metade é um exercício interessante para entender nossas manias de leitor. Alguns exemplos:

O Vermelho e o Negro – Stendhal (Penguin Classics)
Vou usar a frase que já ouvi muitos dizerem: não era a hora certa. As história muito boa, o personagem principal dos mais enigmáticos, o fundo histórico da França politicamente dividida do século XIX que eu adoro, mas... a história se arrastava e no fundo, no fundo não é questão de ‘timing’, é que talvez eu atravessasse um dos momentos preguiça de leitura que às vezes se abate sobre o mais viciado leitor: um daqueles momentos que a gente quer é assistir coisas (filmes, séries) ou navegar na internet sem compromisso: deixar a mente vagabundear. Creio que a leitura será retomada em breve. Farei uma tentativa.

Solos, improvisos e memórias musicais. – Nelson Mota (Ponto de Leitura)
Mota é lendário conhecedor da música brasileira. Eu sou fã da música geração-Gal Costa-Chico-Caetano-e-companhia-limitada. Fui atraída pelo livro. O problema que o título na capa ‘improviso’ não é à toa, o autor não segue uma história encadeada, simplesmente vai mandando umas histórias soltas enquanto acompanha sua carreira com compositor e crítico musical. Livro confuso que eu já retomei algumas vezes para ler ao acaso enquanto escutava um disco da Gal ou Maria Bethania. Não sei se vai.

Os Diários de Victor Klemperer - Victor Klamperer (Companhia das Letras)
Obra longuíssima, com este sobrevivente da segunda guerra mundial, suas auguras comentadas dia após, dia ou semana após semana. Interessantíssimo para acompanharmos bem aos poucos a escala de opressões à comunidade judaica: primeiro ele perde o emprego, depois a casa, depois o direito de sair a noite, depois o uso da estrela, os casos cada vez mais frequentes de pessoas que iam ser interrogadas pela gestapo e nunca mais voltavam... o problema é que chega um momento em que é preciso um pouco de paciência para apreciar tantos detalhes. Mas a obra, o documento em si é fantástico e a leitura será sim terminada, aos poucos, mas será.

E aí? Qual leitor não tem histórias de livros deixados para trás...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Os trabalhadores do mar – Victor Hugo - Cosac e Naify


Ilhas do Arquipélago da Mancha. Victor Hugo nos apresenta um universo em todos os seus aspectos: religião, geografia, historia em um texto acrescentado ao início desta edição. Essa espécie de prefácio se parece muito com o começo de ‘Os Sertões’ de Euclides da Cunha (livro que este blog está a ler). Detalhes e mais detalhes sobre os rochedos, as marés, as correntes de ar. Atravessada esta parte, quando enfim começamos a história que irá se desenrolar, aí sim temos o filé mignon: Hugo nos apresentando seus personagens: Gilliatt, Deruchette, Mess Lethierry, a Durande (um barco – sim um barco é parte importante da história). É um mais fascinante que o outro. Vamos nos ater a Gilliatt. Por um episódio ao acaso, Gilliatt, nosso herói, um solitário morador da ilha, tido por muitos como uma feiticeiro, homem de habilidades e intimidade com o mar, vai sem aviso arriscar a vida até um rochedo no meio do oceano para retomar a máquina perdida do naufragado barco a vapor do senhor Lethierry, outro morador com suas excentricidades – entre elas o anti clericalismo radical. Trabalho insano o resgate da Durande, que coloca nosso herói em luta excruciante com o mar e todos os seus elementos. A recompensa? O casamento com a doce Derruchete, filha do nosso ‘Mess’ – título conquistado a duras penas por Lethierry em uma sociedade divida socialmente cujo amor vai igual para o barco e a filha, a quem promete o casamento para o ser que conseguir resgatar a Durande. O fim da história? Só lendo esta obra fantástica que muitas vezes tem seus momentos ‘os sertões’, principalmente nas descrições dos engenhos de Gilliatt no rochedo: longas e cheias de detalhes que podem cansar o leitor. Mas vale a pena: a apresentação dos personagens é fascinante e apaixonante e o final, ah meus amigos... um final que só um escritor Romântico da estirpe de Hugo poderia nos brindar. E as reviravoltas da trama? E o naufrágio da Durande causando pelo aparente homem exemplo-de-conduta capitão Clubin? Antológico mes amis!!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Hamlet (ou tentando entender a grandeza de Shakespeare)


Já havia comentado algumas vezes minha dificuldade em gostar de Shakespeare. Já lidos do autor: Noite de Reis, A tempestade, MacBeth e Hamlet – talvez a obra mais estudada e escrutinizada da história da literatura. Li as peças com clara dificuldade para entender o que se passava e chegar às profundezas que levam a maioria dos críticos a colocar Shakespeare como o maior criador literário do ocidente. Estes dias me vi pensando mais uma vez sobre o assunto e repassando na minha cabeça o enredo de Hamlet consegui alcançar algo de uma iluminação. Talvez muita gente já houvesse percebido o fato  - e eu aqui dando uma de retardada: mas não é a genial a ideia do personagem que para vingar seu pai não pega em nenhuma arma e sai a matar cruelmente o autor do assassinato? Ao vez disso ele faz o que? Monta uma peça de teatro... uma peça dentro da peça e ali, encenando a morte do pai, ele consegue não a vingança em si, mas confirmar a culpa do assassino pela sua reação. Não é isso genial? Cheguei em casa e fui repassar algumas passagens do livro. Ganhei meu dia, consegui ter um pequeno lampejo da grandeza do bardo! Antológico!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

1968 o ano que não terminou - Zuenir Ventura

A história começa com o revillon na casa de Heloísa Buarque de Holanda, a Helô. Uma festa onde aconteceu de tudo! O ano era a virada 1967-1968. A partir deste momento Zuenir Ventura vai contar através de realtos e de sua própria memória os acontecimentos da época que resultou no AI 5. Mesmo com a seriedade dos eventos não há como não se divertir com a narrativa que conta episódios corajosos, dramáticos. Um deles teve como centro a exibição da peça de José Celso Martinez "Roda Viva". Escrita por Chico Buarque, o diretor se aproveitou do fato de o público de Chico ser majoritariamente a classe média comportada e brindou a platéia com um show de horrores: "No cor­re­dor do tea­tro iniciava-se um ritual antro­po­fá­gico no qual as atri­zes repre­sen­tando fãs dis­pu­ta­vam, estra­ça­lha­vam e devo­ra­vam um fígado de boi cru, sim­bo­li­zando o cora­ção do can­tor que aca­bava de mor­rer. Não raro, aque­les que esta­vam sen­ta­dos nas pol­tro­nas do meio junto ao cor­re­dor, eram atin­gi­dos pelo san­gue ver­da­deiro que vinha do fígado, erguido pelas mãos cris­pa­das da faná­tica turba."
Este e outros episódios são contados no livro de Ventura além de todos os absurdos cometidos pelos censores. Um deles, exigiu a retirada das palavras "gorila", "vaca" e "galinha" da peça "um bonde chamado desejo" do americano Tenesse Williams. Detalhe: o nome do sensor era Leão. Estas e outras histórias, muitas delas sem este humor negro vão se seguindo em uma leitura deliciosa, esclarecedora e equilibrada pois em nenhum momento o autor parece tomar o lado de ninguém. Leitura recomendadíssima pra quem quer ler sobre este período sombrio da história brasileira. ANTOLÓGICO.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Notícias do Planalto - Mario Sergio Conti - Companhia das Letras (1999)


“A construção de uma imagem presidencial não era novidade”. João Figueiredo pousava para as câmeras andando a cavalo, José Sarney se apresentava como literato, Collor como o atleta sendo fotografado correndo, andando de moto, no meio da mata junto a soldados do exército. Mas nem sempre a produção saía como a encomenda. “A motocicleta que ele pilotou em Brasília, uma possante Ninja – descobriu-se em seguida – fora contrabandeada. Na Suécia Collor dirigiu um caminhão que derrapou e saiu da pista. Vestindo colete da Polícia Federal, ateou fogo numa montanha de maconha, mas o excesso de gasolina provocou uma explosão que chamuscou sua comitiva” . Estes e outros detalhes pouco conhecidos sobre Fernando Collor, a construção de sua imagem antes, durante e depois de ser eleito presidente estão contidas nas quase 700 páginas de Notícias do Planalto.
São centenas de anedotas, que Mario Sergio Conti revela no livro que pretende mostrar a relação de Collor com a imprensa. O autor nos apresenta inúmeros jornalistas dos principais jornais, revistas e emissoras de TV. Como a imprensa apoiou Collor como uma novidade e depois escancarou a corrupção que era exercida em seu governo por seu “testa de ferro” PC Farias. Não dá pra largar o livro, somos apresentados a detalhes da personalidade dos jornalistas e da própria família Collor desde o pai do “caçador de marajás”, sua carreira política e a relação pessoal com os filhos! Acompanhamos Collor em sua campanha e seus pontos cruciais como o já famoso episódio da edição do debate entre ele e Lula, fator importante para a derrota do candidato adversário: simplesmente antológico!

domingo, 5 de agosto de 2012

ho-ba-la-la, em busca de joão gilberto - companhia das letras (2011)

'Pra quê discutir com madame?'
Marc Fischer é jornalista alemão "infectado" pelo vírus da bossa nova depois que um amigo toca pra ele a quarta faixa do disco "chega de saudade" de João Gilberto, "ho-ba-la-la". Fascinado com aquela música, ele tem um objetivo: se encontrar com o artista responsável por aquele som único. Ele vem ao Rio de Janeiro a procura de seu ídolo. O único problema é que este é um recluso dos mais extremos: João Gilberto quase nunca sai de casa, não dá entrevistas, não toca para ninguém a não ser para si mesmo - dez, doze horas por dia. O que Fischer vai conseguindo é falar com aqueles que circularam ao redor de Gilberto: Miúcha - sua ex esposa - João Donato, Roberto Menescal e outros nomes importantes da mitológica história da música brasileira. Dessa forma ele se aproxima de João. E agora? Nosso alemão vai consiguir realizar seu sonho? Fazer com que João Gilberto toque para ele - no própio violão que o Marc Fischer traz ao Rio - a música "ho-ba-la-la"? Acompanhamos Fischer em suas aventuras pelo Rio, sua viagem à Diamantina onde Gilberto ficou na casa de uma irmã, dentro do banheiro com seu violão por horas, dias até sair de lá com a "fórmula": seu estilo único que encantou o mundo com "Garota de Ipanema" e congêneres! Um livro delicioso para os amantes ou não da música brasileira. Amantes de uma boa história já irão se deleitar! ANTOLÓGICO.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

persépolis (marjane satrapi); lendo lolita em teerã (azar nafisi)



Dois livros interessantes para se ter uma visão de perto sobre a Revolução Islâmica que depôs o Xá e colocou o Imã Khomeini no poder no Irã em 1979: Lendo Lolita em Teerã de Azar Nafisi (A Girafa) e Persepolis de Marjane Satrapi (Cia. Das Letras) este último uma história em quadrinhos! O relato de Nafisi mostra um grupo de alunas que se reuniram a convite da professora - Nafisi ensinava literatura inglesa na Universidade de Teerã - para discutir livros ocidentais banidos pelo guardiões da moralidade que tomaram conta da vida privada dos iranianos. Enquanto tece os relatos sobre as reuniões em sua casa, Nafisi apresenta o Irã, antes um país com costumes liberais, tomado por uma revolução que baniu a individualidade impedindo mulheres de decidirem sobre suas vidas afetivas e que por obrigação da lei deveriam usar o véu.

O relato de Satrapi também cobre estes eventos, mas de uma maneira um pouco mais bem humorada expondo o absurdo da situação onde as pessoas eram revistadas em busca de qualquer indício contra a moral ou contato com o decadente mundo ocidental (maquiagem, baralho). As duas dão um relato pessoal e sem detalhes históricos, o que não leva a uma análise técnica do período, mas apresenta o absurdo do totalitarismo seja ele de que viés ideológico ou religioso. A anulação da individualidade como meio de controle e a imposição de valores. Antológico!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

a ditadura envergonhada - elio gaspari - companhia das letras

Como disse um professor de história da Yale University, John Merriman: "History has its histories": a história tem suas histórias. Antes de ler um livro sobre um assunto tão melindroso como a ditadura militar no Brasil, é importante fazer uma pequena pesquisa. Por mais que tentem ser objetivos, historiadores (ou neste caso jornalistas) podem ter seus parâmetros intelectuais que, de um modo ou de outro, influenciam sua opinião e consequentemente sua representação da história em um livro.

Foi o que fiz antes de iniciar a leitura deste primeiro volume dos livros sobre o governo militar escrito pelo Elio Gaspari - autor hoje mais conhecido por ser colunista de um dos "jornalões" brasileiros. Elio tem seu arquivo historiográfico pessoal, conversou longamente com alguns dos próprios presidentes militares, como Geisel, e ganhou bolsa de estudos para pesquisar o assunto no exterior. "A Ditadura Envergonhada" cobre o período desde a movimentação dos militares que depôs o presidente João Goulart até a instituição do famigerado AI-5 que jogou o Brasil em dez longos anos de torturas, censura e abusos inomináveis.

Minha "pesquisa" consistiu em ler algumas resenhas na web. O título de um dos artigos que apareceram já logo confirmava minhas suspeitas: "a historiografia envergonhada". Ou seja, alguns dos trechos do livro de Gaspari tendiam a retratar a ditatura de um modo que nem todos possam concordar. Em outro link também li que alunos de pós-graduação em alguma universidade já haviam jogado por terra alguns argumentos de Gaspari. Como gosto de acompanhar estes tipos de discussão, paguei pra ver e encarei a leitura do livro.

Meu conhecimento em política não é substancial, mas acompanho o noticiário e costumo ler a respeito com frequência. Em casa, tive um pai que foi um político fracassado. Nunca conseguiu se eleger a nenhum cargo, mas conheceu pessoalmente gente como Tancredo Neves e Itamar Franco e isso deve ter me influenciado de algum modo a me interessar pelo assunto. Dito isso, não tenho, portanto cabedal para analisar o livro em suas inconsistências ou discutir seus trechos mais polêmicos, mas posso dar minha impressão geral para quem se interessar em lê-lo.

O livro é muito bem documentado, todas as informações tem sua fonte registrada em notas de rodapé. Descreve em detalhes os primeiros movimentos dos militares para a deposição do governo para "salvar" o Brasil do comunismo. Quando do golpe, vai se descrevendo a formação da resistência, a derrota de parlamentares ligados ao militares nas primeiras eleições pós 64 e a publicação Ato Institucional 2 que liquidou as eleições diretas para presidente. Um dos melhores capítulos do livro, no entanto, é a análise do contexto cultural que o autor faz dos anos sessenta, uma década em que a juventude inquieta girava a roda em um sentido e o discurso oficial girava em outra.

O livro é até bem escrito, mas às vezes oscila: tem trechos saborosos e outros em que ficamos perdidos em tantos detalhes (o que pode ser visto como algo bom, certamente). Pesando tudo, sou obrigada a concordar com a crítica feita pelo texto da internet: Gaspari parece olhar para o período militar sem condenar os presidentes em si e sim criticar a chamada "linha dura", a ala indisciplinada dos militares e, claro, a tortura. O presidente deposto João Goulart é mostrado como um homem sem pulso, vacilante, “sem inimigos, a não ser os da política". Os parágrafos finais deste volume contam do episódio em que militares colocam em um palco presos políticos e com ajuda de slides ensinam técnicas: "a palmatória é um unstrumento com o qual se pode bater em um homem por horas a fio, com toda a força..."

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (Millennium - 1) - Companhia das Letras - 2008

Deve-se desconfiar de best-sellers. Quem leva literatura minimamente a sério também desconfia. Por alguma razão o livro que vende milhões tem que ter suas concessões, tem que ser "fácil". Quando a trilogia Millenium começou a ficar conhecida no Brasil, chamar a atenção de leitores e começou a vender, minha desconfiança teria sido a mesma não fosse o fato de o livro ter sido lançado por uma editora que, aparentemente, não faz concessões.  Acabei por adquirir o livro junto com uma outra compra na internet e o coloquei na cesta para não pagar o frete - uma humilhação para um livro.

Depois de mais de um ano na minha estante, resolvi finalmente ler o primeiro volume da série (que é composta por 3 livros). E eis que este livro, que não é lá assim tão best-seller, ensinou uma lição da qual eu havia me esquecido há tempos: como é fantástico o fascínio da leitura. Quero dizer da leitura sem compromissos, sem a necessidade de anotar nada, de simplesmente sentar na poltrona e ser levado pela história. É o que acontece com "Os homens que não Amavam as Mulheres".

Stieg Larsson - o autor, morreu assim que entregou os livros a editora, em um lance de pura fatalidade -  nos deixou a história de Lisbeth Salander, uma hacker anoréxica com típico visual cyber-punk que ajuda o jornalista Mikael Blomkvist a desvendar o sumiço da sobrinha de um grande industrial - cujo desaparecimento misterioso ocorreu há décadas. O personagem de Lisbeth, por mais estranho que seja, é assustadoramente cativante. É seguindo as pistas desta história que o livro nos leva fácil fácil. Como escreve Contardo Caligaris na contracapa do livro: "O problema com Larsson é que, se a gente se aventura e entra na história, está perdido: não tem mais como largar o livro".